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Textos
Sexta-Feira 13! Na última sexta-feira 13 aconteceram-me coisas de assombro. Longe de ser perseguido por uma moto-serra tendo na guia um sujeito em máscara obscura. Três eventos fizeram com que minha mente procurasse os arqueiros do apocalipse a lançar suas premeditadas flechas preparando-nos para 2012. A saga começa de manhã. Aflito por obter 3 urgentes cópias de documentos, pedi à mulher que me atendia que recebesse o valor devido. Aparentemente nada de grave aconteceria até que ela precipitou-se a buscar por uma calculadora. Cada cópia custava R$ 0,20 e dei-lhe o dinheiro já contado. - Preciso fazer essa conta na máquina. – Disse-me enquanto meus olhos se arregalavam. Eram R$ 0,60 redondos, já adiantados e devidamente trocados. - O senhor sabe, não é? Dizem até que é bom fazer contas de cabeça porque a gente vai perdendo os neurônios se não usar... - No seu caso não deve ter mais nenhum! – Teria eu respondido ¨se¨ fosse mal-educado, mas me calei diante da sua incapacidade em solucionar uma equação básica. Era uma pessoa jovem, empresária, e precisou de uma máquina para socorrê-la. Atribuí o fato a algum incidente pessoal de gravidade: Deve ter batido a cabeça em algum ponto da vida. Deixei estar e segui com meus afazeres. Mais adiante, na curva da tarde, comprei o valor de R$ 68,70 em uma grande loja. Adiantei setenta reais e perguntei, repleto de boas intenções, se R$ 0,70 ajudariam no troco. - Claro que sim! – Respondeu a moça ajudando-me a esquecer o assombro do evento anterior. E eis que ela se atrapalha. Para e pensa. A fila movimentava-se atrás de mim como a cascavel diante do chocalho. Pergunta pela calculadora. Meu coração teve um ataque de adrenalina e os neurônios berraram em uníssono: - Pare que eu quero descer! O leitor atento já deve ter feito as contas (e espero que não tenha corrido a uma calculadora). Voltou, segundos depois, triunfante com meus incríveis R$ 2,00. - O senhor sabe: Fim do dia, a gente se cansa... Diante do inusitado largo no balcão um sorriso sob o acompanhamento de um pertinente ¨tudo bem¨ que refresca mesmo que no calor das grandes decepções. A falta de habilidade nas contas, atestada por aquelas pessoas, expõe uma triste realidade nacional: Ninguém mais toma ¨bomba¨ por notas no Brasil. Atendendo a uma vontade do presidente não se fala em repetência. Criou-se, assim, pouco a pouco, uma geração inteira perdida pela falta de esforço ou por pouco ater-se à necessidade de aprender. Querem apenas o ¨certificado¨ de conclusão e o rápido ingresso no mercado de trabalho para satisfazer as necessidades da carne e as vontades do homem. Destrói-se, dessa forma, a busca pelo mérito e a mediocridade começa a nos morder pelos beirais. Uma represa pode ruir a partir do aparecimento de pequenas rachaduras. A dificuldade de tantos em raciocinar é o prenúncio do início de uma era de efetiva dependência das máquinas. E não falo de robôs e de autômatos sofisticados, mas de simples botões de calculadoras. E o que isso tem a ver com a queda do Rodoanel, em Sampa, no fim da noite, recordando-me ter sido aquele um dia cabalístico? As obras de uma geração são o fruto da humanidade que as edifica. Espero que a queda daquele pontilhão seja apenas um acidente isolado e não o estopim de uma sequência espiral de imperícias que a péssima qualidade da educação nacional esteja produzindo. O Brasil se prepara para sediar uma Copa e uma Olimpíada. Milhões de olhos estrangeiros estarão a nos fustigar em busca de nossos faltas que, se não atentarmos, serão imperdoáveis. Nesse momento queria habitar uma ilha, da fantasia, e ter como fruto de meus medos apenas um filme sobre algum massacre promovido por um mascarado que roubava as pilhas das calculadoras: Isso sim seria o fim do mundo!
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Jurandir Araguaia |
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Publicado em 15/11/2009 às 12h36
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