Jurandir Araguaia

"Uma história se conta, não se explica." (Jorge Amado)

Textos

Com apenas 8 dias de reforma em casa já estou com os calos na paciência a saltitar de ânsia. Não fiquei surpreso com a declaração da minha filha de 16 anos ao descobrir o quanto estamos investido na mão-de-obra:
    - Vou parar de estudar e virar pedreira!
    Fiquei pensando:
    - E não é que ela tem certa razão. – Eu mesmo quase peguei nos pincéis, na desempenadeira e pus as mãos na massa. Quase! Aproveitando uma folga dos mesmos, em um dia destinado a um culto nada pagão, resolvi, por minha conta e risco dar nas vezes de trocar alguns lustres e luminárias.
    - Você consegue? – Perguntou minha esposa.
    - Fácil como cortar manteiga. – Respondi já deslocando escada e procurando o melhor ponto de visão. Notei, então, que precisaria comprar um alicate, fita adesiva e outros acessórios. O rapaz da loja tentou vender um super-alicate que quase cortaria sozinho – seria muito útil no saneamento do déficit público – mas preferi um modelo discreto que fizesse o mesmo por muito menos.
    A primeira luminária foi fácil. Cortei um dedo em um fio aqui, desequilibrei da escada e imaginei que seria péssimo passar o fim-de-semana em um hospital. Talvez até ficasse tetraplégico: síndrome de Luciana (Aline Moraes); acho interessante com novela influencia a gente.
    Fui testar e ouvi um estouro. Logo uma fumacinha branca subiu aos céus e um forte odor trouxe toda a família para o centro da sala.
    - Sabia que não daria certo. – Disse uma voz.
    - Ele só inventa. – Disse outra.
    - Ainda bem que não fiquei viúva. – Você pode imaginar quem disse isso.
    - Foi só um curto. Acho que a fiação está velha.
    - Velho está o senhor para isso... – Não me dei por vencido. Tentei de novo.
    - Vê se não incendeia a casa!
    Não incendiou. Consegui, durante um útil sábado de trabalho, movimentar a custos irrisórios 7 luminárias e 12 lâmpadas. Fiquei feliz comigo mesmo. No final da noite, ao esfriarem os ossos, dores aflitas moíam-me o corpo.
    - Serviço braçal é um porre! – Pensei enquanto assistia Onde os Fracos não Têm Vez imaginando o que faria na pele de Tom Lee Jones calculando se valeria a pena lançar mão dos pincéis e mandar a mão-de-obra às favas. Uma súbita câimbra atingiu-me a região lombar. Após o fim da aflição, decidi manter os operários e cuidar de ler bons livros: cada pedra no seu lugar...


Jurandir Araguaia

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Publicado em 10/01/2010 às 10h45


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